“Nós, judeus, somos conhecidos por vários atributos – sendo um deles um pendor por prêmios Nobel, por exemplo –, mas a maestria esportiva não é um deles”. Assim o comentarista Stephen Pollard defendeu a tese de que o ex-jogador Wayne Rooney, do Manchester United e da seleção da Inglaterra, é o maior esportista judeu de todos os tempos.
Uma brincadeira, claro. Mas envolvendo um assunto de extrema seriedade, aflorado num ambiente onde não se esperava nada dessa natureza: um reality show mostrando a vida de Rooney, hoje, aos 40 anos, sem emprego como técnico, sua mulher, Coleen, a quem conheceu quando faziam o ensino médio, e os quatro filhos.
Para entender o contexto: no auge da carreira e do dinheiro que premia os muito talentosos, Rooney ficou famoso também pelas bebedeiras e pelas escapadas, sempre perdoadas por Coleen. Os tabloides cobraram que ela se rebelasse, mas o casal sempre se reconciliava. Entre ter um filho depois do outro, Coleen se estabeleceu como o protótipo da WAG, como os ingleses chamam as mulheres ou namoradas de jogadores que desfilam roupas e bolsas caríssimas, cheias de superficialidade e consumismo exacerbado, além da propensão por relevar infidelidades dos companheiros.
Wayne e Coleen eram pobres e de Liverpool, o que aumenta o preconceito. O sotaque do inglês falado na cidade, chamado de scouse, muitas vezes é incompreensível para outros britânicos. Seus habitantes são os scousers, praticamente sinônimo de falta de classe e de instrução.
‘PUREZA DO SANGUE’
O reality show obviamente está mostrando outras dimensões do casal, mas a surpresa mesmo veio quando Rooney revelou ter ouvido da mãe que a mãe dela era uma judia polonesa que emigrou para Liverpool depois da II Guerra. Sob o trauma indizível do genocídio praticado pelos nazistas, deixou a identidade judaica para trás, algo não incomum, principalmente em mulheres que se casaram com não judeus.
Rooney, um admirador do jogador Ronaldo, se considera católico, como o pai, de origem irlandesa, e a mãe. Chegou a pensar em ser padre, na juventude, devido ao interesse por assuntos religiosos, outra surpresa. Pelas regras religiosas do judaísmo, segundo as quais a linhagem materna determina a identidade, ele é judeu. Para Israel, ter um avó ou avó de origem judaica já se enquadra na “lei do retorno”, o direito a emigrar para o país.
Pelas leis nazistas, qualquer antepassado judeu já elimina a “pureza do sangue”. Durante o império de Hitler, turmas de estudantes desencavavam antigos registros de igrejas para identificar judeus que haviam se convertido para a religião protestante ou católica. Seus descendentes eram assim “denunciados”, num dos inúmeros exemplos de como a banalidade do mal se propagou monstruosamente.
Wayne Rooney é o segundo jogador conhecido a ter antepassados judeus. David Beckham sempre demonstrou muito afeto pelo avô paterno, com quem aprendeu preces e rituais judaicos, embora não siga a religião.
EMOÇÕES DESENCONTRADAS
O dramaturgo britânico Tom Stoppard descobriu aos 56 anos que seus quatro avós eram judeus, mortos no Holocausto. Seu nome original era Tomás Straussler, nascido na antiga Checoslováquia, de onde os pais fugiram em 1938. Ao ficar viúva e se casar com um oficial britânico, sua mãe deixou o passado familiar enterrado e o menino assumiu o sobrenome do padrasto. Escreveu sobre isso na peça Leopoldstadt, mostrando as emoções desencontradas de sua história.
“Só estou aqui por causa deles”, disse o ator Dustin Hoffman, estarrecido ao descobrir, num programa sobre genealogia, que os avós eram judeus ucranianos sugados pelo terror stalinista. “Sempre quis ser judeu”, brincou o humorista americano Pete Davidson, que descobriu 50% de ancestralidade ashkenazi quando fez um teste de DNA. A mãe confirmou que seu pai, o bombeiro Scott Davidson, bombeiro morto em missão de resgate no 11 de Setembro, era judeu, Como é possível que Pete não desconfiasse?
É possível, claro, que exista um desejo profundo de não saber, numa espécie de autopreservação. A ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright dizia que só descobriu aos 59 anos que seus pais eram judeus convertidos ao catolicismo antes do Holocausto. Ela nasceu em Praga. É possível que uma mulher de educação refinada, que estudou em Columbia e foi professora em Georgetown, não soubesse a própria história? Que ignorasse a morte dos avós, nas condições hediondas do transporte para Auschwitz?
Wayne Rooney visitou o campo de extermínio implantando pelos alemães na Polônia ocupada para o reality show. Já havia estado lá por ocasião de um jogo da seleção inglesa. Ficou chocado acima de tudo com as pilhas de roupas e sapatos de crianças exterminadas.
Suas palavras simples resumem praticamente tudo que já foi escrito a respeito: “Você fica pensando como seres humanos podem fazer isso com outros seres humanos”.
Isso sim é um show de realidade.